Uma história de maternidade, perda, reconstrução e da descoberta de que ouvir vai muito além dos ouvidos
Meu filho tinha apenas dois anos quando perdeu a audição. Naquele momento, o chão desapareceu sob meus pés. O medo não era apenas pelo diagnóstico, mas por tudo o que ele ainda teria que enfrentar em um mundo que, muitas vezes, não sabe acolher o diferente.
Foi um ano e meio de tentativas de tramento particular. Exames, consultas, uma cirurgia… e nenhuma solução. O diagnóstico era claro e doloroso: perda de 70% da audição em ambos os ouvidos. Ali, o meu mundo se abriu. Não de forma bonita, mas profunda. Eu atravessava um colapso financeiro, havia ido à falência nos negócios e, no meio desse turbilhão, descobri uma nova gravidez. Tudo parecia pesado demais.
O médico que o acompanhava me disse algo que nunca esqueci: “Olha, mãe, ele é capaz de se adaptar com 30% de audição.” Eu respirei fundo e respondi com o coração de mãe: “Eu não quero adaptação. Eu quero qualidade de vida para o meu filho. O que eu posso fazer?”
Foi então que ouvi o conselho que mudaria nossa história: procurar o posto de saúde do bairro e pedir encaminhamento para a Associação Terapêutica de Estimulação Auditiva e Linguagem (Ateal). Assim fiz. Durante dois anos, toda semana, lá estávamos nós.
Com a perda da audição, meu filho também perdeu a fala. Ele se fechou, não interagia com outras crianças nem com adultos. A fonoaudiologia foi essencial. Aos poucos, ele foi se desenvolvendo, recuperando a comunicação, ganhando confiança. Quando começou a usar o aparelho auditivo, a vida mudou. Literalmente.
Hoje, ele é uma criança feliz. Faz esporte, é goleiro, se posiciona no mundo sem vergonha alguma da sua condição. Foi ele, inclusive, quem me deu força para “segurar a barra” quando tudo parecia demais.
Nesse caminho, a vida ainda nos testou mais uma vez. Meu filho mais novo nasceu prematuro, ficou 15 dias internado e passou um ano na APAE. Foram dias difíceis, noites longas e orações silenciosas. Mas hoje eu entendo: Deus nos deu força. Meus filhos são grandes guerreiros.
O diagnóstico que iniciou tudo foi de otite de repetição. Algo que muitos subestimam, mas que pode mudar uma vida inteira. Nunca vou esquecer o primeiro dia em que meu filho foi para a escola usando o aparelho. Uma criança comentou: “Mãe, você viu? Ele usa aparelho.”
Meu coração apertou. Antes que eu pudesse reagir, a mãe respondeu: “Filho, esse é o poder dele. Ele é um super-herói.” Ela talvez nunca saiba o quanto aquelas palavras me curaram naquele instante.
Hoje, deixo aqui minha gratidão profunda à Ateal, pelo trabalho humano, sério e transformador que realizam. Meu filho ainda é acompanhado por eles, agora com menos frequência, mas com a mesma importância.
Essa coluna não é sobre dor.
É sobre força.
É sobre amor.
É sobre aprender a ouvir a vida de outra forma.